Aula de jornalismo nº 5: Você não vale nada, mas eu gosto de você — bette davis' eyes — tipos.com.br
Aula de jornalismo nº 5: Você não vale nada, mas eu gosto de você
E daí que começa bem o dia quando seu chefe te pede pra ir cobrir a seguinte história: um carro foi parar dentro do rio Tietê durante a madrugada.Segundo diversas notas na internet, após uma discussão, o motorista, que tentava reatar com a namorada, joga o veículo de propósito dentro do lodoso e fétido rio que corta a capital paulista, de acordo com a versão da moça, por não se conformar com o fim do namoro.
Lá vou eu para o 28º DP, na Freguesía do Ó, zona norte da cidade, onde o boletim foi registrado, ja que o acidente ocorrera na ponte de mesmo nome. Chego lá, consigo o b.o. sem grandes problemas e vou atrás dos envolvidos.
Por telefone, falo com a mãe da garota, que já se mostrasse disposta a conversar. Pergunto se a garota mora perto do DP, e ela diz que não, que mora muito longe do local. Que mora, na verdade, EM GUAIANAZES, extremo da zona "Lost".
São quase cinco da tarde. Ligo para a redação e pergunto se devo ir até lá ou fazer a entrevista por telefone mesmo. Minha editora acertadamente recomenda que eu vá até o local para sentir o clima da história. Como o casal é vizinho de quintal, pelo menos mato os dois coelhos de uma vez.
O problema é que Guaianazes fica tão longe, mas tão longe, que quando saio do local, às 19h30, levo cerca de 40 minutos para atingir o extremo leste da linha vermelha do metrô, ou seja, ainda tem mais pelo menos meia hora de carro até a o jornal.
Chego, entrevisto a moça, cercada pelas irmãs, pai, mãe, primos etc... Falam muito mal do cara. Acusam-no de ser um psicopata, dissimulado, que ele acabaria até conquistando minha simpatia.
Vou à casa do rapaz, ele me recebe calmamente, sua mãe idem, seus irmãos chegam pouco a pouco, sem pressa, acompanham silenciosamente a entrevista. Ele me mostra o carro, acusa a moça de ser infiel e interesseira e, sinceramente, conquista minha simpatia. Não por nada, mas simplesmente porque ele não parecia muito preocupado em me convencer de que estava certo, tampouco tentou depreciar a reputação da garota (exceto pelo fato de chamá-la de interesseira e infiel). Além disso, deu o argumento de que não jogaria no rio um carro de R$ 20 mil que havia comprado fazia um mês. Alegou que passou mal, pois não dormia havia duas noites.
Saio da zona lost com essa história que, a meu ver, não passa de mais uma das inúmeras histórias de sem-vergonhice de pobre que presenciei na infância. Nada demais. Nada que os sites e os programas sensacionalistas de TV já não tivessem dado. Ligo e dou retorno. Minha editora pergunta: "Qual ideia de lead você tem?"
"Não faço a menor ideia!"
Chego na redação e penso que nada me resta a não ser relatar a história com a ironia que ela merece, afinal, o cara não jogou o carro da ponte (se é que jogou), mas da marginal mesmo. Ninguém morreu, ninguém se machucou...
Um relato, com um tom meio NP. O chefe já me chama achando que quero derrubar a matéria. Tranquilizo-o e digo que já estou escrevendo. Em 20 minutos o texto está pronto.
Hoje, pela manhã, tomando banho, recebo uma ligação. É uma amiga dizendo que amou o texto. Chego ao jornal, meu chefe também adorou. O pauteiro gostou, a assessora da CET, para quem ligo sobre outra matéria, também. Coleguinhas de outros veículos mandam mensagens. Só o ombudsman que achou "de muito mau gosto" fazer graça com a desgraça alheia... Mas, que remédio, quando os próprios envolvidos fazem graça da própria falta de graça?
Enfim, quando não se tem uma grande história, conte apenas a história com o humor que ela merece que tá tudo certo.
Quem quiser ver a matéria, está aqui, só para assinantes: Romance entre balconista e motorista acaba com carro dentro do rio Tietê
Confira a reportagem completa no Woofer Macroblogging: http://woofertime.com/woof/78097


